quarta-feira, 6 de abril de 2011

Teclas de um rosário doido

[DOÍDO?]

         Sento-me em minha cadeira como a carola que se ajoelha em altar de igreja. Ambos, preparamos nossos dedos para seguirmos em nossas preces. Ela, por meio das miçangas de seu rosário e eu a discorrer meus dedos por um teclado, que agora novo e duro. Ambos, eu e ela, dizemos coisas que vagam pelo ar com a promessa de um  ouvinte insólito.  

         Dizemos tanto e tanto, crendo que nosso tanto dizer pode surtir algum efeito. Ela em suas orações e eu em meus posts. Os dedos a contar Ave Marias,  os dedos a externar minhas heresias. Muitíssimo pertos um do outro: eu dela e ela de mim. Somos quase irmãos num fazer igual: a iluminar nossa alma da maneira que aprendemos a fazer.
 
Ela fala com um deus, e não pode ter certeza de que é ouvida; eu falo para milhões de pessoas, sem a mínima certeza de que alguém está  sabendo do que falei. Mas, tanto ela quanto eu, precisamos fazer assim, dessa forma. Achando, então, a redenção que cabe à nossa existência. Ninguém ouve o que dizemos, mas é importante que tenhamos dito e que tenhamos em mente a possibilidade de haver um ouvinte, quiçá interlocutor. Um discurso nem sempre precisa de todas as partes que lhe são inerentes. Dizemos e já estamos livres do fardo que nos possuía. Ela deposita sua esperança em Deus, de quem espera intervenção; eu deposito meus gracejos em possíveis leitores, de quem espero concordância e comentário inteligentes.  
A internet bem pode parecer um quarto de manicômio ou um altar de igreja, onde uns varridos debatem suas dores e dizem coisas sem sentido, e sem quem ouça, esperando a glória, a redenção, a concretização da loucura.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Sobre AMOR & CAPITALISMO

A doença do "eu tenho"



Ela acorda no meio da madrugada e se sente extremamente feliz por tê-lo ali tão perto, mais perto até do que dela mesma. Impaciente e cheia de amor, o acorda pra que juntos compartilhassem aquele momento extraordinário. Ambos gostavam de trocar carícias inesperadas lá pra três ou quatro da manhã. Depois de uns beijos daqui e ali e uns sorrisos que nem um dos dois pôde ver, ela pergunta:

“Você me ama.” Ele fica surpreso com a pergunta era a primeira vez que ela lhe perguntava isso. Ela não precisava perguntar: sempre que um silêncio se apoderava dos dois, ele enchia o peito e dizia feliz: “Ah, garota, eu te amo.” Meio perdido, sem saber o que dizer para parecer convincente, ele disse o mais óbvio:

“Sim. Te amo.”

“Quanto?” Ela insatisfeita com a resposta querendo mais certeza, mais chão naquele turvo todo que se dava ali. 

“Não posso precisar. Eu te amo.” Ele responde certo do que dizia, e mais certo ainda do que sentia. 

“Prove. Prove que me ama.” Ela ficou de joelhos na cama e ascendeu e ligou o IPod pra iluminar o rosto dele, que franziu um pouco a testa estranhando a repentina claridade. 

“Não posso provar.” Ele disse e sua expressão de incredulidade em relação ao assunto se juntou com expressão de surpresa e de ainda não acostumar-se com a luz do IPod, ela achou que ele estava sem saco, sem paciência para ela. 

“Eu só preciso de alguma coisa a qual eu possa me apegar e ter certeza de que eu não estou perdendo meu tempo.” Ela estava com a sobrancelha levantada e já não queria mais iluminar a conversa com a luz do player. 

“Perdendo o seu tempo? O amor é abstrato, se esquece? Não posso empacotá-lo e entregá-lo na sua mão. Além do mais o amor que eu sinto por você é meu e não algo que eu tenha que te dar. Diz respeito a mim e é quase como se você não tivesse coisa alguma a ver com isso.” 

“Eu não tenho nada a ver com isso?!” Ela agora estava irritada mesmo. “É claro que eu tenho o que ver com isso. E se por achar que eu não tenho nada a ver com isso, você simplesmente se cansar e não dar a mínima pra mim, pra como eu vou ficar?” 

“Você está viajando. O amor não é sólido, nada físico. Não tem porque eu ficar aqui fazendo coisas pra prová-lo. Eu sinto e isso pra mim é suficiente. Eu te amo e saber que eu te amo me basta. Não sei se muito, não sei se pouco. Sei que amo o necessário pra te olhar e te querer, e te quer mais e mais um pouco, e ainda mais se você quer saber.” 

“Viajando eu...” Parece que ela ficara surda a algumas linhas. “Você veja bem o que você diz. Ah, olha uma coisa, eu vou dormir. Até amanhã.” 

“Até amanhã então.” Ele não queria parar por ali, estava inquieto demais e fulo da vida, queria dizer muitas e boas pra ela. Queria mesmo é chamá-la de esquizofrênica ranzinza e rabugenta, mas ela se mexeu de repente e o cheio do cabelo dela chegou às suas narinas e ele então tornou a sentir o mesmo amor por ela outra vez. E já não queria falar mais nada e como não teve coragem de chamá-la a esse amor, virou para o outro lado e tentou, tentou até que dormiu. 

Ela já acordou histérica pela manhã. Disse o que bem quis e disse que ele que provasse o que sentia, por que palavras, ela dizia irritada, “o vento vai levando até que se desfaçam e sejam esquecidas”. Ele por sua vez se encolheu dentro de si e não disse coisa alguma. Ele estava um tanto assustado. Não sabia dar provas de amor. Se sentia inseguro quanto a isso, ficar tentando mostrar o quanto amava e tal, e se não fosse bom o suficiente? Tudo o que sentia estaria simploriamente tão vulnerável ao seu modo desengonçado de ser. Ele não queria isso. Ele podia botar tudo a perder. 

Mas ela foi ainda mais longe: 

“Me prove seu amor. E sem prova é melhor você nem voltar aqui.” Ela disse quanto ele estava vestindo o tênis e tentando ignorar os milhares de quase gritos dela. 

Ele foi pra casa indignado. O que ela queria, afinal? Toda mandona exigindo coisas e provas e solidez num campo que nem físico era. Ele andou meio zonzo pela rua. E por fim, prometeu-se esforçar-se o máximo para dar a melhor prova de amor. E naquele mesmo dia, matriculou-se num curso de música. 

No intervalo das aulas, ele escreveu poemas que fariam o Jonathan de Adélia Prado sentir-se enciumado. Conforme foi ficando melhor nos instrumentos, ele compôs melodias que se Elisa ouvisse ia emudecer todas as caixinhas de música e letras que deixariam a Beatriz do Chico alarmada. Inspirado no amor que sentia, cheio de sonhos e loucura, pintou telas com o rosto da amada, com inspiração tamanha, que faria Dali torcer os bigodes se visse. Esculpiu em madeira, escreveu um romance, fez download de todas as músicas favoritas dela e gravou num cd, assistiu aos filmes que ela mais amava, leu os livros que ela lera tão repetidamente. Escolheu perfumes, fez flores de origami, pássaros e brinquedos de papel machê. Usou das drogas que ela usara. Passou uma semana fazendo as maravilhas que seu amor permitia, passando para as mãos o que era da natureza do coração, como quem passa, para segundos, horas num problema matemático. Escreveu cartas de amor. Desenhos infantis e bobos. Coloriu, perfumou, cuidou de cada detalhe e quando deu por si, não tinha mais espaço na sua casa e nem quintal para colocar todas as coisas que seu amor lhe fizera criar para que fosse provado. Por fim, deu-se conta de que não tinha como levar tudo aquilo sozinho e contratou seis caminhões. Mas eles eram sem graça demais. Ele comprou jets de tinta e grafitou os seis caminhões de maneira que os muros de Miami derreteriam de vergonha caso a frota passasse por lá... 

Quando ia sair de casa sentiu ainda mais um bocado de amor que precisava ser solidificado, mas não tinha material, a não ser um guardanapo já usado e o fim, a raspa da tinta de uma caneta. Assim escreveu:

“Minha cara,” E sentiu queimar o calo do dedo médio direito “tentei ao máximo transferir todo o meu amor nessas coisas que estou enviando. E tentei tanto, mas tanto mesmo que consegui. Aí, nesses caminhões, chega todo o meu amor. E foi tanto, que não restou nem um pouco que fosse para ao menos me despedir escrevendo-lhe “um beijo”. Isso tudo prova o amor que foi meu por você. Agora ele pode ser só seu como você queria. Passar bem.” 

Ele despachou os caminhões e se deixou cair no sofá, estava exausto e com dores em todas as partes do corpo. Também, tanto fazia: vazio como estava só queria olhar pela janela e encontrar outra pessoa a quem pudesse amar.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Meu amor me chamou pra ir com a banda

E eu só querendo continuar a toa na vida 




 
As coisas passam. Elas são passageiras. Os instantes mudam e voltam a refazerem-se. Eles são dèjá vu. Nos tornamos outro nós de nós de novo a recomeçar depois do tão fundamental que se acabou de esgotar e tornar tédio. Não me beije mais pela manhã. De manhã se quer estarei na sua cama. Saio feito quem se esgueira por um chão de navalhas e não se machuca.

O momento me importa. Quero cada um deles. Inclusive este. Quero abrir a janela e me permitir acreditar que tudo, o ar, o sol, as buzinas e a banda existem pra mim e depois, quando tornar a fechá-las retornar ao de ordinário, onde me resigno de novo. Quieto; reprogramando outra vez um outro ato de abrir-me as janelas. E debruçar-me por sobre elas, e brincar que sou rei até ser deposto outra vez.
Morro de gastura de ter janelas abertas durante o tempo todo. Não posso conceber: mosquitos, chuvas, ladrões e tédio. Eu preciso me acostumar com a janela. O seu material, do que ela é feita, preciso me cansar de suas cortinas, dos possíveis adesivos colados pelo irmão mais novo. Quero me cansar da cara das janelas, só assim será extraordinário abri-las. 

Percebo que enjôo do que conquisto. Facilmente. Basta que conquistado esteja. Percebo que não sou o fraco que costumava fantasiar ser. Ele havia me ensinado que ser fraco era melhor e que eu seria exaltado por isso. Dispenso a estrela na testa. Até de conquistá-las eu já cansei. Colecionei muitas. Quero a força, o vermelho, amarelo e laranja que passam por meus olhos tão brevemente que nem têm tempo de me deixar irritado. Quero muito agora, agora queria e não mais. Se a banda passasse todos os dias, a rosa triste permaneceria fechada; a moça feia, suas mágoas, choraria; o faroleiro, vantagem contaria e só. O carnaval nos assalta! Libertação extraordinária. É o mesmo. A mesma coisa. Mas temos um ano até que ele volte. E já o queremos de novo, como se nunca antes o tivéssemos tido. 

Agora, por favor, pare de me beijar de manhã.

domingo, 9 de janeiro de 2011

Borboleta inconstante

Fiz no Paint. rs - acho que se nota!

Meu coração é livre. E asa de borboleta!
Que bate até quanto pode.
Que vai até onde quer.
E frágil, mas me sustenta.
E forte, mas vive inconstante.
Direções e direções e quantas!
Digressões de minhas cores brio.
Ah, coração borboleta,
As flores esperam por nós.
A folhas hão de cantar-nos os feitos,
Os ventos despejam-nos por fim.
Sim, coração inconstante,
Que tão facilmente me leva,
Já sei do alvo novo e distante
Que apontas e a dor me espera.

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Divorciada na lei de Deus


De novo as coisas de vezes milhares antes. E tornamos a levantar a taça de plástico com a sidra para o teto ainda não acabado de nossa residência. E você fazendo de conta que somos felizes. Todos os anos, me corrói o constrangimento da contagem regressiva na companhia de sua tia e de seus primos que são tudo o que temos de família. E você insistindo em ressaltar a nossa felicidade contada no número de carnês que adquirirmos com os últimos crediários do natal.  Você ostenta nossa nova TV enquanto eu combino os sofás de maneira que escondam as imperfeições do mofado nas paredes. Você faz questão de dizer que na sua casa todos comem a vontade enquanto sou eu quem vai ao mercado fazer milagre com meus R$250,00 de limite no cartão de crédito. Você se orgulha da sua árvore de natal, a montou enquanto eu selecionei cuidadosamente o lugar de sua disposição: em cima do piso que quebrou quando por último, depois de ter me jogado no chão, você lançou contra mim um casco de cerveja. Eu não suportaria ouvir você com uma fabulosa história sobre ter deixado um martelo cair. Por isso escondi. Para que não tivesse de ouvir sua tia perguntando sobre. Você dando sidra aos seus primos afinal estão ficando homens e precisam começar a seguir o seu exemplo como figura masculina mais próxima que eles têm. Eles me olham sorrateiros. Estão cansados de ser homens. Eu os fiz assim. Eu os ensinei a ser homens, a tocar numa mulher, a meter nela a encher a cama do marido dela de porra de moleques tarados e a rirem-se do galo de rinha metido a esperto. Eu lhes ensinei como calibrar uma arma e os ensinei a como dar fim a um merda suburbano e ordinário como você. Fui eu. Enquanto você brincava de polir o seu ego, brincava de ser macho sobre mim, de me fazer de seu pano de pia. E me enfiava a porrada e me arrancava tufos de cabelo e me dava roxos e verdes por todo o corpo. Enquanto isso, eu dei muito a minha boceta pros seus primos menores. Dei e você tão macho, tão dono de mim nem se deu conta de que veio me lamber suja deles ainda. Foi gostoso lamber porra de moleques tarados? Agora, o fim. Invertemos as posições das coisas: você chora as suas dores de já enxergar o Cão do outro lado, todo já receptivo de braços mais abertos que os do outro. Enquanto eu escancaro sorrisos doentios lutando entre a ansiedade de te ver morrer logo e o deleite de ver isso assim aos pingos de ora sim, ora não. Não olhe para cima. Você não tem nenhuma parte lá.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Me pergunto


Por que está teu rosto escondido
dentro do teu próprio braço?
E sussurras mui baixo, inaudível,
ao amante de um desesperado.
Como quem temesse ser surpreendido
nas redes de um amor avergonhado.
Como quem mesmo responde
Às questões que há pouco houvera sussurrado.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Harry & Hermione dançando de encanto

É bem um fato que muitos fãs do Harry sempre torceram pelo casal que intitula este post. Não é o meu caso, ora. Mas HP 7/1 pareceu dar algum consolo a toda uma turma que teve de ver seu sonho romântico descer pela descarga junto com a Murta que Geme desde a primeira advertência que o Rony tomou por certa sujeira em seu nariz.

Que o romance mais empolgante de toda a história era encabeçado por Rony e Hermione, ninguém jamais duvidou, ainda que torcesse contra. Mas o sentimento que envolve Harry e a mais adorável das sangue-ruins é ainda mais profundo do que o amor entre um homem e uma mulher.

Um parece conhecer a cabeça do outro e sentir o coração como o outro sente. Se entendem, se sabem e se amam a despeito de dividirem ou não um cama. Coisa que eles cansaram de fazer, sem tensões eróticas, é claro.

A produção de HP 7/1 lançou mão de toda essa intimidade, esse carinho e até correspondeu a alguma expectativa dos fãs mais ávidos por um pouco mais dos dois: que desta vez, não foram só os três de sempre, acharam lugar de ser dois: Harry e Hermione, sem Rony, sem nenhuma conotação sexual ou de outra coisa do gênero. Só queriam saber de ser eles dois. E tivemos uma "valsa" um tanto quanto engraçada e tivemos um beijo super caliente que, cá pra nós, é digno de um Movie Awards de Melhor Beijo do ano. 


Vi o filme na pré-estréa na madrugada de quinta para sexta, muita gente louca gritando, vibrando, aplaudindo e chorando (inclusive eu), e saí às duas e tanta da manhã a flutuar por Niterói feliz, feliz como nunca antes fiquei com um filme de Harry Potter. Confesso que sempre tive um queixa, alguma birra rabugenta com a adaptação, mas dessa vez, tive de me limitar a sorrir e permanecer encantado. O filme foi muito sensível para com as relações entre as pessoas e principalmente entre Harry e Hermione. 

Ora, àqueles que necessitam conhecer a música que Harry e Hermione dançaram, aqui vai uma dica http://mp3skull.com/mp3/nick_cave_o_children.html

A música se chama "O'children" e é do Nick Cave.

Termino este post sobre algo que amo com um dos pontos altos do filme, quando o Dobby nos braços do seu "Harry Potter" diz: "What a beautiful place..." enquanto contempla as maravilhas do por vir da liberdade.