A ignorância sobre o hoje que já nos tomou no passado torna-se engraçada, uma vez calcados no terreno dos acontecimentos de agora. E nem sabíamos o quão enredados estaríamos nessa coisa estranha, confusa e angustiante que aprendemos a chamar de vida. E a gente não pôde dizer o que seríamos, onde estaríamos, com quem. A ignorância do que nos tornaríamos nos trouxe ao que somos, pois, afinal se pudéssemos antever, muito não seríamos então. Muito seria impedido. Muita dor seria podada já na essência. Muito seria evitado.
Uma vez aqui em cima, depois de certo e também longo caminho percorrido, nos damos com aquele de nós lá do começo: aquele de nós que ainda não tinha tamanho pesar. E torcemos, como quem acompanha uma montagem da Paixão de Cristo, para que façamos escolhas diferentes, que não tomemos aqueles caminhos, mas é um torcer inútil, estamos fartos de saber que o Cristo foi a cruz. Torcemos pela vitória num jogo reprisado, do qual já conhecemos a derrota.
E os próximos. A neblina do alto da montanha me impede de ver adiante. De saber o que é. Só posso contar com minhas aspirações, com o que quero que venha... E outra vez me pego ignorante, sujeito aos mesmos erros, aos mesmos resultados errôneos ou até certos, de alguém que se pudesse prever o adiante, no mínimo, faria algo para impedir parte dele.
domingo, 11 de abril de 2010
terça-feira, 6 de abril de 2010
"At Waterloo [Dorothy] did surrender"
Sonhei que estava sonhando um sonho bom. Comigo, Feiticeira, armário, leão, homem de lata, espantalho, Totó. Eu: Dorothy, Lúcia, Alice. Eu era Godot e não vinha; eu era o mágico e ludibriava os outros com minhas histórias, com meu jeito de falar. Eu era Aslam e dizia tudo, e enchia o peito, o enchia de mim. Sei que era tudo sonho, que tudo era Literatura; eu sou Literatura. Tudo o que sou é o que escrevi. Sou pouco. Também sou o que li; também sou o que escreverei. Sou Milena, Lucas; sou Lean, sou todos eles e acho que serei Alana.
Eu sou Alice correndo atrás do coelho; sou Alice encarando a Rainha de Copas; sou Alice, uma nova vez, afogando-me em minhas lágrimas. Me perco no labirinto, no do Fauno, do Minotauro, no do Torneio Tribruxo. Me perco no tabuleiro de Xadrez de Bruxo, no tabuleiro de Jumanji. O negócio é me perder: nas letras e palavras, seus fonemas, sua música. Me perder também entre as porradas nas minhas teclas. Me perco nos olhares dos Lucas’s, no sorriso de Milena, nos suicídios de Alana. Alana sempre se mata. A cada novo conto ela acha um jeito de dar cabo de si. Ala é minha vontade. É a coragem que busco na Estrada de Tijolos Amarelos. A saída da loucura esteve sempre nos próprios pés. E posso sair do abismo no qual me meti. Eu tenho sapatos.
Quando percebi que eu queria ir à Nárnia, que eu, de fato, queria estar lá; quando me entristeci por entender que Nárnia não existe, me dei conta, como nunca, de que sou Literatura, e por isso nem existo. Sou apenas a sombra acordada e triste. Uma sombra frustrada, desenganada; nunca desencantada. Não há Nárnia, não há Hogwarts. Nada de Oz ou País das Maravilhas. Mas há Godot – nem que perdido em algum lugar, impedido de chegar. Há o mágico; Aslam persiste e Dumbledore me ama.
Se sonhei acordei desgostoso. Por que me tiraste o sonho? Por que despertaste-me? Justo agora que Herminone Granger e eu lutávamos contra o mal? Justo agora que Cristo me tomou em seu colo e me levou a uma procissão de travestires? Por que me roubaste primo do Porco? Deixasse-me dormir. Sonhar, escapar da minha realidade fria e sem ação, emoção; sem cadeiras de prata, sapatos de rubi, sem desaniversário, sem Nimbus 2000.
domingo, 4 de abril de 2010
Eu mato a minha angústia no teclado

Eu mato a minha angústia no teclado
Pois esse é o único modo que sei de me deixar vivo.
É no teclado que eu mato tudo o que dói.
Ali, eu aperto, estouro, espremo:
Pus e secreções...
Eu mato a feiúra no teclado.
Tudo o que é feio não resiste ao contato dos meus dedos com ele.
Não resiste e se torna belo.
Eu dou vida a toda dor no teclado,
Pois do tanto que tento matar,
Não faço além de deixar escapar mais.
Eu mato a minha angústia no teclado
Porque ele é o único que pode suportar o peso de meus dedos
E o peso que jogo sobre ele.
Além do meu teclado, que outro ser se sujeitaria a formar tais sentenças?
Eu espanco o meu teclado pra não ter que espancar ninguém!
Eu me escondo atrás dele; o teclado me protege, me liberta para dizer
[o que a língua não consegue
Enrola, se perde. Louca!
E quando a angústia se alia ao tédio e escorrem juntos por mim inteiro
É o pobre do teclado que dispara a executar minha melodia doente.
Eu mato quase toda a minha angústia no teclado,
Por que calejado de apanhar, não se queixa do fardo de receber
Sobre si, constantemente, o peso da desgraça contida em seu eu.
quinta-feira, 1 de abril de 2010
Moinhos, o mundo e uma criança

Que decepção!: acordar de manhã e se dar conta de que toda maravilha vivida não passou de um sonho. Acordar e dar com a realidade debochando de você. Dizendo: “Besta. Acreditou nas falácias do seu subconsciente desesperado.” Agora, tudo é secura diante do nada que não chegou a existir. E se tinha tamanho tesouro nas mãos e agora não mais.
Não para mim! Acostumado às vias do devaneio, escapo! Vou! Fugindo pelas vielas do pensamento, Sobrinho de Mago que sou, atravesso Guarda-roupa, dou com Feiticeira, abraço Leão. Ando a Cavalo, brinco com seu Menino. Vislumbro um Príncipe, viajo com ele em seu navio, peregrinação na Alvorada. Descanso numa Cadeira de Prata, onde me preparo para encarar a Última Batalha. E a realidade quer me levar o brilho dos olhos, quer extinguir a última chama acesa em mim. O Nada levanta-se para devorar a minha Imperatriz Menina!
E me dói, a certeza de que cresço. Cresço e não posso mais alimentar-me. Alimentar os anseios de fuga, de heroísmos, de amores... Cresço e sinto arder meus pés. Eles não aguentam o peso de andar. E quando eu quase penso que sonhar não pode ser mais a minha praia, me vem Cartola, um paternal Cartola, com uma voz suave, carinhosa, me dizer que ainda é cedo, que mal comecei a conhecer a vida e que, mesmo resolvido, minha vida ficaria pelas esquinas. Ele me chama mais perto e me diz pra ouvir bem: “o mundo é um moinho”. Um moinho que tritura. Um moinho é capaz de levar um Quixote à beira do abismo. Retorno à querida Cecília, “não sei se saio correndo, ou se fico tranquilo...”
Cartola pai me pede para ficar, protegido pelo manto das ilusões, dos devaneios; a Cecília criança, se inquieta indecisa. Dom Quixote me mostra a morte que há em sair em busca de viver devaneios. Não sei se cresço ou se me escondo. Não sei vou ou se me resguardo. Não sei se faço sexo ou se leio Jane Austen. Talvez, ainda seja cedo, pai. Talvez seja já tarde.
Foto: Minha irmã, um pangaré de mentirinha e eu. No tempo que se tirava fotografias em praças nos bairros.
terça-feira, 23 de março de 2010
Verdade

Há algum tempo ando me questionando o que é a vida: o que viria a ser essa maravilha duvidosa e estranha a qual me sinto tão intimamente ligado e pelo que me sinto incondicionalmente responsável. Absurdamente longe de obter uma resposta, afinal descreio da existência de uma, andei por um caminho e outro até encontrar o que mais pudesse me servir de verdade.
Mas eu nunca aceitei muito essa idéia de que seja possível alimentar uma verdade que não seja comum a nenhum ser humano além de mim mesmo. Como posso carregar no peito uma verdade que ninguém assinou antes? Talvez o mistério esteja em não carregar, no peito, nenhuma verdade, pois quando a verdade ruir – o que sempre acontece – o coração estaria bastante vulnerável sem seu escudo protetor. A verdade, aquela que me consola, que me determina, me diz aonde ir e o que fazer, deve ser mantida à mão e sempre. Assim, ela estará sempre apta a ser descartada no advento de uma nova verdade ou renovado quando eu encontrar um jeito novo de vivê-la.
A verdade para a minha vida deve ser encontrada por nenhuma outra pessoa que não seja eu. Ninguém pode estar autorizado a decidir ou impor uma verdade a mim. A verdade de mim é um fera que só eu posso capturar. Uma verdade domesticada por outrem de maneira nenhuma se adequará a mim. Virá a mim cheia de falhas e de lascas desnecessárias, viria cheia de autoridade e requereria adequação de minha parte; mas a verdade encontrada por mim e para mim me cairá como uma luva. E não estou importando se ela é verdadeira, não! Não quero saber se Platão disse o contrário ou se Wittgenstein disse que não. Pode Buda ter dito outras coisas e até Cristo ter dito ser tudo de procedência maligna. Não é meu dever dar importância extremada ao que disseram antes. Minha verdade deve bastar a mim mesmo, num determinado momento, numa determinada necessidade, contudo, a minha verdade não pode ser manipulada por mim. Ela, apesar de minha, é autônoma. Ela tem seus caminhos: a mim coube achá-la não domá-la. Não sou seu adestrador, antes, seu arqueólogo que a procura, a pesquisa e a descarta em busca de novos achados.
terça-feira, 16 de março de 2010
Escape rápido da tarde
Acho que preciso, de fato, sumir. De tudo. De mim, de minha casa, vida, família. Não quero mais minhas responsabilidades, não quero mais as dores que viver me traz. Eu queria fugir para algum lugar de minha infância, onde tudo era inocência e simplicidade.
Queria, de novo, a era em que minhas atitudes, ínfimas como só elas eram, não desencadeavam coisa alguma em nenhuma outra parte do mundo, ou mesmo de mim. Quero mesmo é voltar a ver as coisas da maneira intransigente como uma criança vê. Tudo é o que eu penso e só o que eu penso e vejo pode ser verdade. O mundo todo é o que sei dele. Todo o mundo é meu pois só eu o percebo. Só eu o sei e ninguém outro pode mensurar o tamanho que ele tem para mim.
Há pouco queria me esconder entre palavras e pontuações de um texto barato. O fiz! Me esconder no refúgio do que acredito ser mais meu em todo mundo. Combinar letras, ajustar palavras... Canalizar meus pensamentos, as confusões em que me meto tentando amenizar minhas certezas. Eu as tenho, mas seriam dolorosas. Não sou confuso, mas cauteloso. Não sou sorrisos, mas uma máscara infundada e protegedora. Não sei, me escondo aqui, por que aqui tudo é meu. Só meu. Só eu entendo. Só eu sinto. Só eu quero entender e sentir.
Queria, de novo, a era em que minhas atitudes, ínfimas como só elas eram, não desencadeavam coisa alguma em nenhuma outra parte do mundo, ou mesmo de mim. Quero mesmo é voltar a ver as coisas da maneira intransigente como uma criança vê. Tudo é o que eu penso e só o que eu penso e vejo pode ser verdade. O mundo todo é o que sei dele. Todo o mundo é meu pois só eu o percebo. Só eu o sei e ninguém outro pode mensurar o tamanho que ele tem para mim.
Há pouco queria me esconder entre palavras e pontuações de um texto barato. O fiz! Me esconder no refúgio do que acredito ser mais meu em todo mundo. Combinar letras, ajustar palavras... Canalizar meus pensamentos, as confusões em que me meto tentando amenizar minhas certezas. Eu as tenho, mas seriam dolorosas. Não sou confuso, mas cauteloso. Não sou sorrisos, mas uma máscara infundada e protegedora. Não sei, me escondo aqui, por que aqui tudo é meu. Só meu. Só eu entendo. Só eu sinto. Só eu quero entender e sentir.
quarta-feira, 2 de dezembro de 2009
Lá se vai um outro Dom

De Moinhos de Ventos se fazem dragões. Do nada se faz o tudo e outra vez. Do tudo fez-se o nada e mais um pouco. Um além e alguma despedida. Café que dói no peito, tão amargo. Voz calada e seca já não diz. Preso na garganta há um bolo. Um drama; uma esperança codorniz.
Querendo ver moinho tão gigante. Os passos do Quixote que se quis, bem mais, bem muito mais e já não diz. Calado agora vê suas palavras pregadas num papel de tinta e giz. A força que continha em ser quem era, ruiu ao som do rock em tarde griz.
Austero e poderoso decidiu. A hora de a irmã vir dar as mãos. Ao além, suas aventuras, o quanto mais. De palavras que o espelho repetiu. Avante mais avante e além, o céu é o limete que se vê. Mas, eis portas abertas e avante. O céu que já rompido recebeu; Quixote com sua valsa dos moinhos, dragões que ninguém mais reconheceu. Feliz, Quixote. Tanto saltitante. Saltou em sua valsa certeira. Adeus disse ao mundo e às amantes e àquela a quem, um tanto, compreendeu.
Moeda de dois lados, do Quixote. Teatro. Drama. Show. E carmesim. Os braços feito asas tão voante, o rápido e curto voô codorniz. Romantismo e Quixote foi avante. Às letras das palavras que já leu. Gigantes levantaram-se entre sombras. Moinhos subjugam o herói.
Quixote disse aloha, lá vou eu. Jazente, já não mais me espere ver. Talvez lá no além, outra morada. Naquela que tanto desafiei.
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