terça-feira, 16 de março de 2010

Escape rápido da tarde

Acho que preciso, de fato, sumir. De tudo. De mim, de minha casa, vida, família. Não quero mais minhas responsabilidades, não quero mais as dores que viver me traz. Eu queria fugir para algum lugar de minha infância, onde tudo era inocência e simplicidade.

Queria, de novo, a era em que minhas atitudes, ínfimas como só elas eram, não desencadeavam coisa alguma em nenhuma outra parte do mundo, ou mesmo de mim. Quero mesmo é voltar a ver as coisas da maneira intransigente como uma criança vê. Tudo é o que eu penso e só o que eu penso e vejo pode ser verdade. O mundo todo é o que sei dele. Todo o mundo é meu pois só eu o percebo. Só eu o sei e ninguém outro pode mensurar o tamanho que ele tem para mim.

Há pouco queria me esconder entre palavras e pontuações de um texto barato. O fiz! Me esconder no refúgio do que acredito ser mais meu em todo mundo. Combinar letras, ajustar palavras... Canalizar meus pensamentos, as confusões em que me meto tentando amenizar minhas certezas. Eu as tenho, mas seriam dolorosas. Não sou confuso, mas cauteloso. Não sou sorrisos, mas uma máscara infundada e protegedora. Não sei, me escondo aqui, por que aqui tudo é meu. Só meu. Só eu entendo. Só eu sinto. Só eu quero entender e sentir.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Lá se vai um outro Dom


De Moinhos de Ventos se fazem dragões. Do nada se faz o tudo e outra vez. Do tudo fez-se o nada e mais um pouco. Um além e alguma despedida. Café que dói no peito, tão amargo. Voz calada e seca já não diz. Preso na garganta há um bolo. Um drama; uma esperança codorniz.

Querendo ver moinho tão gigante. Os passos do Quixote que se quis, bem mais, bem muito mais e já não diz. Calado agora vê suas palavras pregadas num papel de tinta e giz. A força que continha em ser quem era, ruiu ao som do rock em tarde griz.

Austero e poderoso decidiu. A hora de a irmã vir dar as mãos. Ao além, suas aventuras, o quanto mais. De palavras que o espelho repetiu. Avante mais avante e além, o céu é o limete que se vê. Mas, eis portas abertas e avante. O céu que já rompido recebeu; Quixote com sua valsa dos moinhos, dragões que ninguém mais reconheceu. Feliz, Quixote. Tanto saltitante. Saltou em sua valsa certeira. Adeus disse ao mundo e às amantes e àquela a quem, um tanto, compreendeu.

Moeda de dois lados, do Quixote. Teatro. Drama. Show. E carmesim. Os braços feito asas tão voante, o rápido e curto voô codorniz. Romantismo e Quixote foi avante. Às letras das palavras que já leu. Gigantes levantaram-se entre sombras. Moinhos subjugam o herói.

Quixote disse aloha, lá vou eu. Jazente, já não mais me espere ver. Talvez lá no além, outra morada. Naquela que tanto desafiei.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Ontem


Eu chorava quando me machucava. Ontem eu fechava os olhos em frente a um cemitério. Ontem eu sabia correr sem me achar ridículo. Ontem nada era ridículo. Ontem eu arrebentava meus chinelos. Suava sem nenhum preconceito. Fazia xixi na cama. Ontem eu queria ser o “primeiro a escolher o que ‘cê quer da vida!”. Ontem eu ainda sabia pedir desculpas. Eu não conseguia acompanhar as legendas nos filmes. Ontem eu era mais feliz. Eu não sabia que veria tanto. E também não sabia que mesmo vendo tanto, não teria visto muito. Ontem eu tinha medo mortal de morrer. Ontem jogar Super Mario com o Yannes era coisa muito importante. Ontem falar na língua do “K” com a Tatyany era coisa quase religiosa. Ontem Deus me era uma certeza. Ontem eu tinha mais juízo. Ontem era só a Sandy. Ontem não será mais hoje. Talvez, aos vinte, se comece a sentir o peso do Romantismo: muito longe da aurora e já bem perto do se pôr... Ao Yannes e à Taty eu digo um “oi” desconjuntado, e é tudo o que dá para fazer. Sinto a nostalgia, a tal da saudade inexplicável daquilo que ainda não vi e daquilo que os anos não trazem mais. Ontem ficou para traz: como tudo foi ficando, fica ainda e ficará logo, logo e já está ficando de novo.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

O Jardim da Estação


João Superis regava o suntuoso jardim de liláses que dava importância à magnífica faixada da sua casa no Jardins. Ele podia atrazar-se para o trabalho, não dar atenção à mulher ou negligenciar o desenvolvimento dos filhos, mas nunca cogitava a ideia de deixar de lado o suntoso jardim de liláses que dava importância à magnífica faixada da sua casa no Jardins. Afinal, a chegada da estação das flores anunciava também a chegada da inspeção dos jurados da Revista Jardins e Faixadas, que julgariam e elegeriam, entre a alta roda paulistana, o Jardim da Estação; os nervos de João vinham sempre à flor da mais alta pele, pois um dos jardins favoritos ao título era o suntoso jardim de liláses que dava importância à magnífica faixada da sua casa no Jardins.

O jardim de Superis liderava as pesquisas de ibope em todos os jornais do país, ora essa, o concurso atraia os olhos de todos os brasileiros, do mais rico ao mais pobre, e a maioria dos expectadores estava torcendo para o suntoso jardim de liláses que dava importância à magnífica faixada da sua casa no Jardins. O ego do dedicado jardineiro amador se inflava e se regozijava com as notícias e a possibilidade cada vez mais possível de ganhar o prêmio com o suntoso jardim de liláses que dava importância à magnífica faixada da sua casa no Jardins. Contudo, as liláceas, muito bem cuidadas com a dedicação de alguém que as amava, tiveram de deixar de se inflar tanto assim, pois ao suntoso jardim de liláses, que dava importância à magnífica faixada da casa no Jardins, veio se achar um rival de peso. Era um jardim inusitado, descuidado de quase tão abandonado: um jardim de daninhas, magnânimas daninhas que davam um aspecto rústico e deixado de lado a um imponente casarão desabitado ainda no Jardins.

Os jurados estavam vindo de uma cercânica logo perto e se depararam com aquela magnitude do acaso, da mãe natura e dos excrementos de incetos e só, ficaram abismados ao notarem a beleza de um jardim de daninhas, magnânimas daninhas que davam um aspecto rústico e deixado de lado a um imponente casarão desabitado ainda no Jardins. Os jornais ávidos por darem o que falar, comentaram em letras grandes de primeira página: “O Jardim da Estação”. E no subtítulo eles escreveram o seguinte: “Surpresa! Um jardim de daninhas, magnânimas daninhas que davam um aspecto rústico e deixado de lado a um imponente casarão desabitado ainda no Jardins começa a mudar a opinião pública a respeito do suntoso jardim de liláses, que dava importância à magnífica faixada da casa no Jardins.”

João Superis extranhou tal notícia e até foi grosseiro com sua assintente naquela manhã, a assiste ficou perplexa, em muito tempo não era tão furiosamente destratada pelo patrão, que esbanjara bom humor desde que se tomava como campeão o suntoso jardim de liláses, que dava importância à magnífica faixada da sua casa no Jardins. As pessoas todas, agora, na verdade, estavam encantadas com a naturalidade com a qual havia se dado àquela maravilha do mundo, em forma de erva daninha. As pessoas estavam muito interessadas numa história de ver o belo nas coisas que geralmente se custuma a tomar por feio. Quebrar com conceitos envelhecidos e coisas assim... Afinal ninguém pode decidir o que é belo ou que não é.

João não conseguia suportar que aquela brenha fúfia fosse capaz de destruir tudo pelo qual ele batalhou. Não podia vir assim, do nada e sem dono, para dar fim ao sonho de toda uma vida: cultivar e encher os olhos do mundo inteiro com o suntoso jardim de liláses, que dava importância à magnífica faixada da casa no Jardins. Porém parecia vir sim, assim, do nada e sem dono, bem mesmo, o jardim de daninhas, magnânimas daninhas que davam um aspecto rústico e deixado de lado a um imponente casarão desabitado ainda no Jardins.

O resultado da eleição foi bem mantido em segredo, afinal, com todos os veículos de mídia se preocupando em saber qual seria o resultado afim de publicar primeiro, era de se esperar que a “Jardins e Faixadas” também quisesse ser o primeiro meio a noticiar o vencedor. E a capa da edição do último mês da primavara vinha estampada com um jardim de daninhas, magnânimas daninhas que davam um aspecto rústico e deixado de lado a um imponente casarão desabitado ainda no Jardins. E na manchete se lia em amarelo vivo: “O que é, realmente, o estética mente o belo?”.

Mas Nietzsche chamou Kant de idiota!

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Eu


Este sou eu. E no meio da minha bagunça eu não quero que ninguém me defina. Eu não dou essa autoridade. Dou igaul autoridade aos que possam querer me dizer quem eu sou. Pois eu sei muito bem quem eu sou: eu sou exatamente aquilo que, no meio do infito, no meio do caos, da bagunça do mundo, eu posso entender como meu.

Apartir do que é meu eu posso ver o que sou eu. Aquilo que gosto, que amo, adoro, é o que pode deixar a minha marca no mundo. Meus prazeres são o que vai dizer que no fundo, desse baú velho de mil coisas que posso ser, há algo que só eu sou. Mesmo sabendo que para ser eu, sou obrigado a depender de você.

Nesse turbilhão de coisas: meu relógio, meus incensos, Scotland Yard, fone de ouvido, Jogo da Vida, Uno, o curativo transparente, minhas moedas, minhas cartas para quem amo, um pregador, minha Compactor 07, as músicas amadas, minha velha camisa do Flamengo, eu me vejo. Como se olhasse para um espelho e, num espelho, não vejo nada além de mim.

É bem verdade que muitos têm todas essas coisas, mas um vascaíno tem tudo, menos a camisa do Flamengo. Ou alguém que não tenha um relógio, um incenso. Tudo, no meio de quem sou é muito banal e comum a toda a massa, mas a combinação é minha e me faz mim a cada vez que me combino, que escolho as minhas escolhas. Mesmo que sejam escolhas comuns, não se farão como se fizeram antes por outras pessoas e ainda vale a máxima de Heráclito.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

A valsa dos lobos uivantes


E de dançar se vai a vida tão valsante. A grande valsa que é dos lobos mais uivantes. Que já dos gregos, dos romanos, ultrajantes. Que é do Àquiles tão bem como do seu Pátroclo. E cai a noite em seu luar mais desvairado, que invade tudo com seu dom tão prateado, e ninguém pode já dizer quem era antes, identidade se perdeu já não se sabe. Não tem olhar, não tem a voz, não tem mistério. Só tem o passo e não se pisar nos pés.

Escorre a valsa que dos lobos já uivantes, buscando o néctar que há por entre troncos. E se dançar que se dançando tão dançantes a não errar um só mandato da cartilha. Se vai pra lá, se vem pra cá e a noite rompe, não mais mistérios, não mais segredos que o dia esconde.

E de joelhos, ajoelhados, tão cristão, abrindo a boca pra pedir que, do céu, mande, o brando gozo que alegrará, uivantes, os lobos pobres tão polidos a dançar. A boca aberta esperando o deus que venha e lhe aprazer e lhe entregar a recompensa, o manar que vem do alto e que não falta, aquele mesmo que não se deve armazenar. E sorri, feliz que sorridente. Não mais espera, agora sim já pode ver. O deus que veio, que já não mais a vir, agora veio e se faz vez de engolir. O lobo uivante faz calar o seu uivado. Se põe sossego e não mais atormentado. E já não dança, antes vai-se bem do baile. Já valsou, o deus já veio e aleluia.

A valsa é boa, é gostosa e chama mais. Ela vicia e tão logo quer de novo. A sede aumenta e só sabe em demasia. Escraviza o lobo que não sabe dizer não. Ele não quer, mas uivar é natureza. E não se prende a natureza, não. Essa não nasceu pra se dobrar ao que, de dia, dizem, mas sim pra deixar que a noite mostre o que é seu. E tão sedentos, pois a sede não a acaba, os lobos voltam a uivar bem pela areia, o mar cantando e as estrelas segredantes, não contam ao sol o que, à noite, vem a ver.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Há vida após a morte

Não é um crime se questionar nesta direção. Nós que também não sabemos nada do mar, não saberíamos nada até sobre nós mesmos. O que viria no então desconhecido? Posso atestar: há vida após a morte. Já estive lá e estou eu tentando dar meus primeiros passos no depois de morrer. Tentando renascer e nem cinzas me sobraram. Vou do nada. Ressurgir do nada. O que não me parece ser um ressurgir, mais se mostra como um surgir outra vez como se nunca tivesse surgido antes. Não!, há cinzas das quais surgir novamente. Ficou uns resquícios que me possam valer de alguma coisa.

Minha morte não foi a tradicional. Acho que não estaria mais aqui se tivesse sido. Acontece, na verdade, que o meu filho (leia-se, PC), bateu as botas e não consegui recuperar exatamente a pasta na qual eu guardava o meu modesto legado. Morri!
Mas morrer neste caso se fez algo bom. Morrer representa um fim para um novo começo, para algo novo que vem além daquele grande muro que o menino que caminha, caminhando chega num muro... Futuro. Talvez, mesmo, tenha sido melhor. Para que não mais eu me fiasse nas coisas antigas e daí pra frente produzir o meu novo, que vai se indo nas minhas veias até as pontas de meus dedos. Morrer não representa o fim. Mas exatamente o oposto. Iniciar. Um começo tão bom e tão avançado que já estou no Windows 7. Só de começo, o meu novo começo já se fez apoteótico. Nem há o que chorar. Remoo alguns textos queridos que se foram para o além que não sei como encontrar. Talvez eu contrate a Polícia Federal para achar. Em nome do que eu considero minha arte, posso até dizer que me envolvi com pornografia infantil, só para a Anjo da Guarda vir xeretar no meu pc qualquer arquivo. Dizem que eles encontram mesmo depois do shift-del.
Acho que não. Vou curtir a vida, como a vida deve ser após a morte. Nesta minha reencarnação, não me cabe saber o que vivi em vidas outras. Basta que eu siga sendo o novo que o destino, acaso, ou o que for, tenha me imputado. Lá vou eu.
P.s.: Pra provar a o renascimento: uma pintura minha (Eu Fawkes), pintado no Paint do Windows 7.