quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Eu


Este sou eu. E no meio da minha bagunça eu não quero que ninguém me defina. Eu não dou essa autoridade. Dou igaul autoridade aos que possam querer me dizer quem eu sou. Pois eu sei muito bem quem eu sou: eu sou exatamente aquilo que, no meio do infito, no meio do caos, da bagunça do mundo, eu posso entender como meu.

Apartir do que é meu eu posso ver o que sou eu. Aquilo que gosto, que amo, adoro, é o que pode deixar a minha marca no mundo. Meus prazeres são o que vai dizer que no fundo, desse baú velho de mil coisas que posso ser, há algo que só eu sou. Mesmo sabendo que para ser eu, sou obrigado a depender de você.

Nesse turbilhão de coisas: meu relógio, meus incensos, Scotland Yard, fone de ouvido, Jogo da Vida, Uno, o curativo transparente, minhas moedas, minhas cartas para quem amo, um pregador, minha Compactor 07, as músicas amadas, minha velha camisa do Flamengo, eu me vejo. Como se olhasse para um espelho e, num espelho, não vejo nada além de mim.

É bem verdade que muitos têm todas essas coisas, mas um vascaíno tem tudo, menos a camisa do Flamengo. Ou alguém que não tenha um relógio, um incenso. Tudo, no meio de quem sou é muito banal e comum a toda a massa, mas a combinação é minha e me faz mim a cada vez que me combino, que escolho as minhas escolhas. Mesmo que sejam escolhas comuns, não se farão como se fizeram antes por outras pessoas e ainda vale a máxima de Heráclito.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

A valsa dos lobos uivantes


E de dançar se vai a vida tão valsante. A grande valsa que é dos lobos mais uivantes. Que já dos gregos, dos romanos, ultrajantes. Que é do Àquiles tão bem como do seu Pátroclo. E cai a noite em seu luar mais desvairado, que invade tudo com seu dom tão prateado, e ninguém pode já dizer quem era antes, identidade se perdeu já não se sabe. Não tem olhar, não tem a voz, não tem mistério. Só tem o passo e não se pisar nos pés.

Escorre a valsa que dos lobos já uivantes, buscando o néctar que há por entre troncos. E se dançar que se dançando tão dançantes a não errar um só mandato da cartilha. Se vai pra lá, se vem pra cá e a noite rompe, não mais mistérios, não mais segredos que o dia esconde.

E de joelhos, ajoelhados, tão cristão, abrindo a boca pra pedir que, do céu, mande, o brando gozo que alegrará, uivantes, os lobos pobres tão polidos a dançar. A boca aberta esperando o deus que venha e lhe aprazer e lhe entregar a recompensa, o manar que vem do alto e que não falta, aquele mesmo que não se deve armazenar. E sorri, feliz que sorridente. Não mais espera, agora sim já pode ver. O deus que veio, que já não mais a vir, agora veio e se faz vez de engolir. O lobo uivante faz calar o seu uivado. Se põe sossego e não mais atormentado. E já não dança, antes vai-se bem do baile. Já valsou, o deus já veio e aleluia.

A valsa é boa, é gostosa e chama mais. Ela vicia e tão logo quer de novo. A sede aumenta e só sabe em demasia. Escraviza o lobo que não sabe dizer não. Ele não quer, mas uivar é natureza. E não se prende a natureza, não. Essa não nasceu pra se dobrar ao que, de dia, dizem, mas sim pra deixar que a noite mostre o que é seu. E tão sedentos, pois a sede não a acaba, os lobos voltam a uivar bem pela areia, o mar cantando e as estrelas segredantes, não contam ao sol o que, à noite, vem a ver.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Há vida após a morte

Não é um crime se questionar nesta direção. Nós que também não sabemos nada do mar, não saberíamos nada até sobre nós mesmos. O que viria no então desconhecido? Posso atestar: há vida após a morte. Já estive lá e estou eu tentando dar meus primeiros passos no depois de morrer. Tentando renascer e nem cinzas me sobraram. Vou do nada. Ressurgir do nada. O que não me parece ser um ressurgir, mais se mostra como um surgir outra vez como se nunca tivesse surgido antes. Não!, há cinzas das quais surgir novamente. Ficou uns resquícios que me possam valer de alguma coisa.

Minha morte não foi a tradicional. Acho que não estaria mais aqui se tivesse sido. Acontece, na verdade, que o meu filho (leia-se, PC), bateu as botas e não consegui recuperar exatamente a pasta na qual eu guardava o meu modesto legado. Morri!
Mas morrer neste caso se fez algo bom. Morrer representa um fim para um novo começo, para algo novo que vem além daquele grande muro que o menino que caminha, caminhando chega num muro... Futuro. Talvez, mesmo, tenha sido melhor. Para que não mais eu me fiasse nas coisas antigas e daí pra frente produzir o meu novo, que vai se indo nas minhas veias até as pontas de meus dedos. Morrer não representa o fim. Mas exatamente o oposto. Iniciar. Um começo tão bom e tão avançado que já estou no Windows 7. Só de começo, o meu novo começo já se fez apoteótico. Nem há o que chorar. Remoo alguns textos queridos que se foram para o além que não sei como encontrar. Talvez eu contrate a Polícia Federal para achar. Em nome do que eu considero minha arte, posso até dizer que me envolvi com pornografia infantil, só para a Anjo da Guarda vir xeretar no meu pc qualquer arquivo. Dizem que eles encontram mesmo depois do shift-del.
Acho que não. Vou curtir a vida, como a vida deve ser após a morte. Nesta minha reencarnação, não me cabe saber o que vivi em vidas outras. Basta que eu siga sendo o novo que o destino, acaso, ou o que for, tenha me imputado. Lá vou eu.
P.s.: Pra provar a o renascimento: uma pintura minha (Eu Fawkes), pintado no Paint do Windows 7.

domingo, 26 de julho de 2009

A feira nossa de cada dia e secreta


“Quanto vale uma imagem.” Alguém gritou, pois queria vender uma. Quanto será que pagariam pela imagem que fizera questão de lustrar durante todo aquele tempo? Sem dúvida tinham de dar um alto preço, afinal foram anos de polimento, polidez, cuidados e construção. A quem interessar possa, vende-se uma imagem. Vende-se uma imagem que é feita de muita coisa e com muito cuidado, uma imagem projetada, sobre a qual muito pouco se conhece. Uma imagem bonita, claro, claro! Não seria diferente. Ela estampa as meninas protegidas, que não querem ver muito. Alguém pensa que com elas é capaz de estampar as protegidas de outrem, mas não é. E são muitos produtos anunciados aos berros dos feirantes nervosos, necessitados de vender suas primícias, ou mesmo o que tinha sobrado que fosse vendível. Era de vender e só. De vender se vive a vida e se ganha ela também.

O que vende mui cedo se levanta, ou tarde tarde vai dormir. Há esmero. Há trabalho. Moldar não é fácil. Produzir não é fácil. Elas andam pela orla, pelo silêncio, pela escuridão que seja, e seus saltos fazendo barulho, anunciando a mercadoria que ali, se vendia. Nós. Mulheres vendíveis. Nós outra vez. Nesse circo qual feira, a lona está lá, barraca está lá, somos nós atração, estamos lá.


Quanto há de valer a imagem? Quanto pagariam por ela. Não vale a pena saber. Não vale mesmo. A imagem não será comprada, ela será vendida em esquema de troca, cada um casa a sua e leva outras neste espetáculo que tão incansável e chiclete velho do outro dia.


Eita, aurora nova repetida e alguém volta à feira, monta seu circo e expõe o que tem. Vende barato, rebola e masca chiclete e fede a perfume de mau gosto e vagabundo. E as sobrancelhas são finas de quase não ter. Tentando vender, vender a imagem e tudo o quanto puder. Vender e vender. Vendidos. Vendentes. Venditivos. Vendedores. Prostitutas.

P.s.: Nos contorcemos pra mostrar o rosto que nos convém (acerca da foto).

terça-feira, 7 de julho de 2009

A rosa-carne carnívora de egofagia


Tudo, no mundo todo, em todo mundo, parece ser só uma questão. Tudo parece se resolver justo ali na primeira atitude reconhecida de um ser humano: nascer. Pronto, não haveria mais necessidade de nenhuma palavra. Alguns transcendem. Só alguns. Não a maioria. Esta se espreme em continuar sendo quem era no momento em que foi dada à luz. È tão simples, ninguém pode escolher nascer. Tão injusto. Como se determinar onde nascer? Porque alguns vão nascer em maternidades muito luxuosas nas grandes cidadas do mundo, outros nascerão a alguns quarteirões na períferia das mesmas. Ainda se verá os que nascerão por aí, em cidades que a gente só ouve falar nos notíciarios em tempo de guerra, fome, seca, desgraça, desgraça, desgraça... Seria mister uma maior sagacidade das almas? Que elas fossem mais espertas em chegar primeiro?


Dizer que Deus é quem escolhe é simples demais e incomoda porque põe fim às indagações. Não quero isso. Quero mesmo é entender, e sei que não vou, que tal de fatalismo é este, que nos fez assim? Não há muitos dados levantados em minha pesquisa, tenho de assumir, mas reconheça que o campo sobre o qual me inclino não é lá algo assim de fácil acesso.


Será, então, que uma alma escolhe aonde vai vir a este mundo? Em quem. Em que circunstâncias. Como. Não há escolha. Despostimo. Ainda nos chamamos de ingratos quando reclamamos do Déspota. Ele nos dá o que comer e dá segurança ao nosso país, logo, um sentimento de divida para com o Carcereiro que nos dá jaula e joga alguma comida cresce bem dentro de nós. Não faz mais do que sua obrigação, uma vez que nunca completaremos a maior idade perante Ele.


Diante do tudo isso o que é imposto de alguma forma e força quando nós nascemos é necessário que enxerguemos um algo de bom que possa nos manter vivos e sorridentes por um período até a hora de morrer. Mas Paloma, deitada já naquela hora da noite, não tinha bons olhos. Seus olhos não eram bons para que pudessem olhar coisa alguma. Mas estavam abertos e vazios como tinham se habituado a estar. Dentre tantas e tantas e mais outro bucado de tantas e tantas mais, teve ela-justo-ela o desfortúnio. Não podia impedir a desafortunança quando ela decide chegar. Outra coisa para a qual não há solução. Chega e pronto. Desgraça! Mas se não fosse ela, outra teria nascido ali. Ah, se fosse sua alma um pouco mais esperta!, estaria em qualquer lugar que fosse onde fosse.


Contudo se ela não fosse, seria alguma outra. Seria sim. E porque seria? N’alguma coisa constava que alguém devia passar por aquilo? Constava quem deveria passar? E uma das outras tantas também se questionaria trancada no quarto como fazia Paloma. O nome seria o mesmo, o corpo também e a flor também seria a mesma. Egofágica. Paloma sentia, dentro de si que mesmo longe dali, distante o quanto fosse, sentiria o peso que era seu. Mesmo que outra das muitas tivesse de encarar o seu fardo, ele pareceria seu, pois tudo aquilo era muito ela pra que fosse outrem... Não havia saída outra senão as lágrimas. Era pra sempre. Irreversível. Doloroso. Cruel e genético. Que diacho de nascença desgraçada!


Uma sentença que se levantava e se proclamava e irrevogável. Sem chances. Nasceu e já é. Setenças de mortos de fome, de milionários, de subdesenvolvidos, de suburbanos, de negros, brancos e pardos. Sentenças que se recebe sem crime, sem erro. Mas castigo. Por que crime? Original? Por que, então, não se batiza bolsa escrotal de pai e ovário de mãe? Ninguém nasce pecador! Ninguém precisa de punição, nem de miséria, nem de doença que vem da mãe, que vai pra filha, que fica trancada, olhando fixo.


"Você não vai comer?" O primo de Paloma entrou no quarto. "Você não come há três dias."


"Não." Paloma olhou para ele e seus olhos assumiram um tom um tanto quanto sonhador. "Eu vou ficar aqui. Bem parada." E um sorriso ia se desenhando em seu rosto. "Se eu não me alimentar, minhas funções vitais vão, gradativamente, parar. E aí, eu morro." Os dentes dela estavam à mostra, sorrindo.


"Ué, por que não polpa tempo e se mata logo de vez?" Ele perguntou enquanto escolhia uma blusa no seu guarda-roupa.


"Original de mais!" Ela debochou. "Eu teria a mesma história da minha mãe. Só que sem marido e filha." Ela fez um muxoxo. "E além do mais eu não tenho coragem." Ela teve uma idéa. Brilhante. "Você faria isso por mim? Digo, tirar minha vida?" Ela realmente o olhou com alguma esperança.


"Não. Para a lei, a vida não é um bem que você pode dispôr. Eu seria preso."


"Mas pra você a cadeia seria boa, não?" Ela imaginava as coisas que podiam acontecer na cadeia com seu primo, e foi como se jogassem gelo antártico no seu coração, ela não podia...


"Por quê?" Ele arregalou os olhos.


"Ah, você sabe o que eles fazem uns com os outros na cadeia... E além de tudo, você pode fingir que tentou me estuprar e eu reagi e daí você me matou: eles costumam ser bem legais com estupradores. Bom, se o estuprador for como você, talvez se sinta bastante feliz nesse contexto."


"Garota, o que esse médico te disse, hein?" O primo franzia as sobrancelhas. "Parece que você deu uma passada no inferno e voltou pra atormentar os outros?"


"Eu fui sim, mas não voltei. Continuo num inferno."


"Você vai morrer?"


"E você não sabe que tudo o que eu quero é morrer?"


"Já disse a você, se mata e pronto. Prometo que encomendo uma coroa bonita!" Ele saiu do quarto. Mas enfiou a cabeço pelo aro da porta: "Caso não queira se suicidar de fome, o jantar ta na mesa."



Paloma trancou a porta. Correu até o espelho levantou a saia e viu o que lhe afligia. Se não é mãe, é mulher. Se não é esposa, é mulher. O que define? O que dá a alguém o direito de assim ser chamado? Mulher. O que é necessário ter? Mesmo as que não tem filhos, as que não tem marido, continuam sendo chamadas de mulher. Mas Paloma se perguntava se também podia ser chamada mulher. O que defendia o sexo feminino, o que fazia o médico gritar "Mulher", ela tinha de maneira mui comprometida e parecia querer negar a sua condição de ser o que era, mutilava-se em penitência, auto-flagelo. O que faz a uma mulher ser mulher. O que faz não fazia mais. Era o quê, depois de tal falimento? Quem lhe escolheu para tal provação? Ah, se pegar pudesse o desgraçado. Ele chegou antes, muito antes.


Ecatologia!, a mãe terra se destruíndo. A fonte de origem humana, onde a vida é gerada se auto destruíndo. Como se Géia iniciasse um processo de auto mutilação. A natura pondo fim à sua capacidade, seu dom, de gerar. Refastelando-se num banquete de egofagia, a rosa de carne carnívora. L. E.. Google it!

Imagem: Senhoras de Avignon de Pablo Picasso

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Abismo










Refletir sobre mim mesmo, acabou por se tornar um abismo que não tem fim e do qual não consigo sair. Cada vez que caio mais, mais tenho a cair e vou caindo. E a treva que vejo no fundo, no fundo, não é agradável. Não é. Eu tenho mania de me ver, me ver mais do que jamais vi. Espelhos não contam toda a verdade, a verdade mora dentro de mim. Lá tem o que eu mais quero ver e o que menos quero também. Eu vejo cada coisa...

quinta-feira, 5 de março de 2009

Dúvidas



Dentre os divinos prazeres que nossa mãe Eva conquistou para nós, infelizmente não se encontrou nenhum pouco de oniscência; e mesmo a nossa tia grega Pandora, com toda a sua curiosidade, não encontrou esta dádiva na caixa que abriu. Por esta falha das nossas sábias ancestrais, nós ainda caímos com frequência naquela que muito nos assola.
Quando ainda estamos na manhã de nossas vidas nossas dúvidas são como aquelas citadas por Cecília Meireles: “Não sei se brinco ou se estudo/ Se saio correndo ou fico tranqüilo...”. Felizes os tempos em que podiamos perguntar aos pais como resolver nossos tórridos dilemas. Não que chegue enfim a idade em que os conselhos dos progenitores se tornem obsoletos. Nunca. Mas algumas vezes podemos descobrir, amargamente, que nossos maiores heróis, em todo o mundo, podem se enganar e sangrar como nós.
Do mesmo jeito que acontece conosco, nossas dúvidas acabam por amadurecer e vão deixando o cerne da de “Tamarindo” ou da de “Maçã Verde”, para questões mais ardidas de se decidir. E sempre o que mais incomoda é a idéia de que uma decisão tenha de ser tomada, e mais preturbador ainda é quando reconhecemos que nós é que devemos assumir a posição de sujeito na tal ação que não queremos tomar, pois temos em mente a lei da física que garante que uma ação gera uma reação. E o que nos apavora é o medo do que fará João Bobo no seu certeiro regresso. Vezes, nossas dúvidas são tão dramáticas que poderiam até mesmo se igualar a do jovem príncipe Hamlet, entre ser e não ser. Viver ou fugir para um além desconhecido. Outras vezes, a grande dúvida é no tangente a qual cor de camiseta usar naquele dia específico.
Porém todas as dúvidas, mesmo a do Hamlet, se tornam menores; pequenas questões infantis quando estão em jogo aqueles olhares. De repente, todas as grandes questões do mundo, as grandes indagações dos filósofos, dos religiosos, da existência humana e mesmo a guerra entre os Deuses e Darwin, entre os deuses e outros deuses caem aos pés da dúvida que envolve aqueles olhares. O que eles queriam dizer naquele instante. E aqueles toques. Será? Seria um equívoco meu? E se ir fosse decisão tomada e ir? E ao mesmo tempo um ir sozinho? Seria exatamente como se perder na rua de casa, dentro do próprio quarto, se perder nas listras do lençol que cobre a própria cama. Duvidar não é um crime, pudera! já é castigo. É mais que castigo: revirar-se numa cama com lençóis desarrumados numa noite de insistente Março, quando alguém esqueceu de pagar a conta da luz. E os abraços. E as palavras. E os inocentes toques de pele. Nunca saber, se um dia talvez, se aqueles olhares foram então do que seria bom que fossem.